quarta-feira, 21 de setembro de 2011
Eu vou parar de me espremer nos cantos da minha saudade, calar a minha boca e tentar continuar. Deixar evaporar os pingos de vida restante que escorriam dos meus olhos e tentar continuar. Eu vou tentar ser forte, superar e continuar. Eu vou parar de mentir e voltar a me espremer nos cantos da minha saudade, porque horas passam, a vida passa, a dor não passa.
Eu tenho cigarros e músicas tristes, uma gaveta com uma carta ou duas que eu escrevi pra você não ler, onde costumo te chamar de “meu amor” e de outros codinomes só pra fingir que é de verdade. Eu simplesmente apareço pra apontar todos os seus erros e pra fingir que te conheço, por mais difícil que seja. Eu te conheço tudo errado e não me importo.
Agora já é tarde pra tentar te ligar, e tudo que resta é esperar que a manhã te acorde, pra eu aparecer e te mostrar que está errado como sempre esteve, que tudo isso está errado, e que também me conhece errado, mas é o lado errado do medo que nos faz continuar.
Se eu quiser arrancar meus sapatos e dançar com o seu fantasma, me deixa, se o meu corpo vai, então foda-se minha alma… eu tenho cigarros e músicas tristes que sempre ficam toda vez que vai embora.
Esse é o som do fim misturado com alguns chiados loucos do começo, as sintonias se entrelaçam e se perdem. Junto se vai toda a minha paranóia e pode até ir meu par de asas de todas as vezes que me chamou de “anjo”. Tudo isso se dissolve aos poucos, simplesmente vai embora. Esvazia meu coração. Esvazia meu peito. Sorri meu rosto. Alegra meu dia. Já não importa o quanto você se importa.
Moscas. Um cigarro aqui, outro ali, paredes brancas manchadas de batom, lençóis com cheiro de despedida. Muito de mim, eu demais. Água fervendo, toalha molhada, embalagem de bom-bom, sorriso embaçado. Perfume. Meu Deus, perfume. Discos antigos, melodia conhecida, memórias antigas, inimigo conhecido. Cinzeiro, cinzas, cinzas, cinzas, garrafas, uma pena. Marca de mordida, marca de arranhão, marcas de digitais latejando pela pele. Pegadas que vão até a porta. Cafeína borbulhando na cocaína, inquietude, solitude, paranóia, leve toque de saudade.

A escuridão do quarto aumenta enquanto o gás do isqueiro vai acabando, eu não sei se a fumaça vem da minha cabeça ou do fogo que às vezes oscila. Eu tropeço em palavras mesmo que elas estejam em minha cabeça e sempre que tenho que começar tudo de novo, desmorono. Desmorono completamente quando você chora. Desmorono completamente quando eu não sei e eu simplesmente não sei. Eu não sei se são os três cobertores ou é simplesmente o peso de todas as vidas que não estou vivendo, só sei que ouço meus ossos se quebrarem aos poucos… mas não dura muito. O quarto todo foi dominado pela escuridão e pelo cheiro de gás, que trouxe consigo um chiado que me lembra de todas as vozes que um dia eu ignorei, ou pode ser só o som da chuva, me deixando desesperada pra conseguir dormir.
domingo, 5 de dezembro de 2010
Parábola.

É tão familiar e irresistível esse calor... assim, nesta forma que tenho agora, te abraçando, nesta realidade aqui. Assim, nesta forma que tenho agora, com um olhar vasto e esperançoso... selvagem.
Nós raramente nos lembramos do que veio antes desse precioso momento, escolhemos estar aqui e agora. Aguente firme, mantenha-se dentro deste corpo, me prendendo, lembrando-me de que não estou sozinho. Este corpo que me faz sentir eterno. Toda essa dor é uma ilusão.
Nós quase nunca nos lembramos de quem ou o que veio antes deste momento precioso, nós estamos escolhendo estar aqui agora... Segure-se, mantenha-se dentro desta realidade sagrada, desta experiência sagrada.
Escolhendo estar aqui agora, neste corpo. Este corpo que me segura é meu lembrete de que aqui eu não estou sozinho, neste corpo, este corpo me segurando, se sentindo eterno. Essa dor, toda essa dor não passa de uma fria ilusão.
Rodopiando em círculos com esta parábola familiar... rodando, driblando ao redor de cada nova experiência. Reconheça isso como um presente sagrado e celebre essa chance de estar vivo e respirando.
Este corpo me segurando me lembra de minha própria mortalidade... Abrace este momento. Lembre. Nós somos eternos.
Toda essa dor é uma ilusão.
Tool.
terça-feira, 14 de setembro de 2010
Não sei.
Ouça o som das penas pousando no linóleo
Fechando um par de olhos no quarto escuro
Deixando as gotas salgadas marcarem tua pele feito óleo
Fazendo de tua respiração um lugar seguro.
Pequenas mãos permitem lhes pousar um rosto
Magoado.
Marcado.
Esquecido.
Salvo do colapso pois as paredes têm ouvido.
A ponta de seus dedos desenham na terra fria.
Enquanto lhe lateja o doce vácuo da terapia.
Três e meia da madrugada.
O tempo se torna melodioso e eterno.
Me mantenho calada.
Enquanto arrastam sua auréola para o inferno.
A brisa gélida penica as digitais em seu corpo.
Acelerando o pulsar de seu coração morto.
O timbre da voz ecoa a melodia tão pequena.
Só pra salvar minhas asas em quarentena.
Duas almas incorporadas em um corpo sem amar.
Dois pulmões escurecidos sem precisar de ar.
Quatro olhos avermelhados, opacos, sem olhar.
Dois pares de asas com medo de voar.
59 segundos de gravidade parada,
1 batida cardíaca estagnada,
Não sei que horas da madrugada.
Buscando um refúgio na direção contrária
Se deixando dissolver na ventania da cidade portuária.
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